Por Gusmão Neto
O 04 de dezembro é uma das datas mais marcantes para os baianos e tem uma força especial que une os católicos, candomblecistas e umbandistas, além de trabalhadores como bombeiros e baianas de acarajé. O site Teia de Notícias explica o porquê.
Para o catolicismo, esta data foi reservada para homenagear Santa Bárbara, pois teria sido nesta data que a jovem cristã Bárbara foi morta em praça pública na Turquia, decapitada pelo próprio pai. Conta-se que logo após a sua morte, um raio fulminante atingiu e matou o seu assassino, fato que veio a relacionar Santa Bárbara aos raios e tormentas.
Em Salvador, os seguidores do Candomblé e Umbanda celebram nesta data a orixá Iansã, também conhecida como Oyá. Importante ressaltar que Santa Bárbara não é Iansã, nem vice-versa. Elas são relacionadas no sincretismo a partir de uma estratégia dos povos africanos que vieram para o Brasil em situação de escravidão e eram impedidos de cultuar seus orixás, inquices ou voduns. Como a deusa africana Iansã também possui o poder dos raios, trovões e tempestades, ela foi sincretizada com Santa Bárbara, apenas para driblar as punições dos seus senhores. Da mesma forma com os outros orixás que foram “substituídos” por santos com características parecidas.
Deste modo é importante frisar a importância que o sincretismo teve para garantir a perpetuação da prática religiosa do candomblé. Sem essa tática, o culto poderia estar aniquilado por conta da perseguição das autoridades católicas contra os negros escravizados. Hoje em dia o povo de santo reforça a questão identitária: Iansã é Iansã, e Santa Bárbara é Santa Bárbara.
Padroeira dos bombeiros
Por ser considerada a protetora dos raios, tempestades, trovões e incêndios, Santa Bárbara passou a ser a Padroeira oficial dos bombeiros, e por isso todos os anos na Bahia o Corpo de Bombeiros participa ativamente das celebrações. A cor vermelha também simboliza a santa, pois ela foi considerada uma mártir após ser condenada à morte apenas por não aceitar abandonar a sua fé cristã.
Baianas de acarajé e Iansã
As baianas de acarajé também são figuras importantes nesta data, pois na religião de matriz africana, o bolinho de feijão fradinho frito com dendê é o alimento que representa a orixá Oyá Iansã. O acará é sagrado para o povo do Axé e veio trazido para o Brasil pelos africanos escravizados e foi popularizado a partir da mulheres negras de santo que comercializaram o produto em busca da independência financeira. Pela bravura de Iansã, o bolinho também representa o empoderamento feminino.
Sobre liberdade religiosa
A relação de Santa Bárbara com militares e o próprio ocorrido com a jovem Bárbara na Turquia, assassinada pelo próprio pai, que não aceitava sua religão cristã, são fatos que devem servir de reflexão para a questão da intolerância religiosa. Santa Bárbara é um exemplo claro de que as pessoas precisam ser livres para escolher e praticar a sua fé. O que aconteceu com aquela jovem seguidora de Cristo que teve os seios arrancados e a cabeça decapitada pelo próprio pai (que foi imediatamente fulminado por um raio) em praça pública talvez seja o acontecimento do cristianismo mais material para que cristãos católicos e conservadores entendam que a natureza não tolera intolerantes.
*Gusmão Neto é jornalista, candomblecista e militante da luta contra a intolerância religiosa.

